domingo, 19 de outubro de 2008

Currais Novos

A flor brejeira do Seridó

REGIÃO DO SERIDÓ

Igreja Matriz de Nossa Senhora de Santana
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Só quem sobe a Serra do Doutor, rasgando a estrada até chegar à cabeceira da Chapada da Borborema e deixando para trás os serrotes agrestes no horizonte, consegue ver uma flor brejeira brotar na terra seca em meio ao mato ralo da caatinga e dos facheiros, onde começa o sertão. Naquela terra, onde é possível ouvir dos velhos vaqueiros o aboio, o lamento do sertanejo, principia o Sertão do Seridó.

Da paisagem sertaneja e seu mato miúdo, nada mais se tem além de um sol abrasador. Em Currais Novos, a vegetação é magra e o vento que foge das encostas das serras já não carrega a frescura que abranda o calor dos telhados.

Porta de entrada para a região do Seridó, Currais Novos desabrocha para o turismo com se fosse uma rosa bruta catingueira sentindo o cheiro da chuva na primeira florada.

Currais Novos é uma cidade com um potencial turístico ainda para ser lapidado, recheado de histórias e bravura entre índios e colonizadores. O município faz parte do chamado “Roteiro Seridó”, oferecendo várias opções de encantamento para o visitante.

História de Currais Novos
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Vista parcial da cidade. Em primeiro plano, a Praça Cristo Rei.

Currais Novos está localizado na Região do Seridó, a 180 km de distância de Natal, seguindo pela BR 226. O município começou a se desenvolver a partir de 1940, quando foram descobertas grandes reservas de shellita, minério valioso, produzindo uma exploração em larga escala e iniciando o processo de imigração de garimpeiros e comerciantes.

Nesse período, destacou-se a figura histórica de Tomaz Salustino que, com seu espírito empreendedor, contribuiu ativamente para o progresso de Currais Novos. Com o advento da shellita a cidade cresceu, sua economia ampliou-se e a população aumentou substancialmente devido à chegada de pessoas que buscavam trabalho e negócio.

De acordo com material arqueológico encontrado na região, o índio já habitava o sertão há oito mil anos atrás. A presença do homem branco na área aconteceu por volta de 1688, quando o Governador Geral do Brasil mandou uma expedição à região com a finalidade de reprimir a revolta dos índios Canindés e Janduís (Guerra dos Bárbaros), iniciada no ano anterior, que o Governo da Capitania do Rio Grande do Norte não conseguiu debelar.

A expedição, comandada pelo paulista bandeirante Domingos Jorge Velho, atravessou o sertão do Acauã e alcançou a localidade onde nasceu a povoação de Currais Novos, cuja origem está ligada também ao período do Ciclo do Gado.

No livro “Nomes da Terra”, Sebo Vermelho Edições, o historiador Câmara Cascudo afirma que, no ano de 1687, Afonso de Albuquerque Maranhão tinha conseguido derrotar e fazer prisioneiro o chefe dos Canindés. Com o final dos combates, já no século XVII, muitos mercenários, capitães e soldados, passaram a ser lavradores, em sua maioria sem possuírem terras.

Conforme Cascudo, apenas em 1755 o povoamento começou a dar sinais de desenvolvimento com a presença do Coronel Cipriano Lopes Galvão, vindo de Igarassu, Pernambuco, onde casara com dona Adriana de Holanda e Vasconcelos, fixando residência na “Data do Totoró”, estendendo pela região do “São Bento” uma fazenda de gado.

“Na bifurcação dos rios Totoró e Maxinaré, confluência de vaqueiros, construiu, em 1760, uma casa e três novos currais, de pau-a-pique com troncos de aroeira, usados para o gerenciamento da criação, compra e venda do gado”, escreveu Cascudo.

O Coronel Cipriano Lopes Galvão morreu em 1764, deixando seis filhos.O primeiro de seus filhos, o Capitão-Mor Cipriano Lopes Galvão, proprietário do Sítio São Bento, a pedido do pai, constrói uma capela em honra a Sant’Ana, custeando e doando “meia légua de terra”, na ponta da Serra do Catunda, para patrimônio da santa.

Em 1808, devido ao desenvolvimento agropecuário, já havia outras famílias de colonizadores fixados na região, constituindo um povoado. Assim, em 26 de julho de 1808, concluída a capela, realizou-se a primeira procissão com a imagem de Sant’Ana (trazida do Recife), levada pelo Capitão-Mor, sua família, criados e amigos, do Totoró até a capela.

A herança de um povo guerreiro

Pedra do Cruzeiro, marco da religiosidade seridoense.

O povoado de Currais Novos participou ativamente da campanha abolicionista, com a ação efetiva de um núcleo da Sociedade Libertadora Norte-riograndense, tendo à frente Cipriano Lopes Galvão de Vasconcelos e Joventino da Silveira Borges.

A luta abolicionista, que durou vários anos e contou com a participação de muitos, deu resultado: Currais Novos libertou seu último escravo no dia 19 de março de 1988, antes da promulgação da Lei Áurea.

Currais Novos foi Distrito de Paz do município de Acari até o ano de 1890, quando, em 15 de outubro, foi elevado à condição de município autônomo e sua sede, à categoria de vila, sendo instalado a 6 de fevereiro de 1891. Em 29 de novembro de 1920, a vila é elevada à categoria de cidade.

O mundo subterrâneo da Mina Brejuí

Túneis da Mina Brejuí.

É preciso cruzar o Rio Maxinaré para percorrer um labirinto de túneis escuros na Mineração Brejuí, onde se alcança com a vista a schelita emanando das paredes úmidas.

Um banho de energização nas dunas de minérios, formadas pelos resíduos de calcita, quartzo, mica, berilo e scheelita, expurga as impurezas d’alma, como se os fragmentos dos cristais dessem vigor para seguir a jornada.

Sítio arqueológico do Totoró

Escrituras rupestres na Pedra Rasgada.

Ver o sertão é singrar o imenso juremal no sopé da serra de Santa’Ana até o sítio arqueológico Totoró e lançar o olhar nas grutas que preservam figuras rupestres de 12 mil anos, onde os indígenas, antigos moradores daquele pé de serra, deixaram registrados seus costumes e crenças.

Seguindo a trilha catingueira, o badalar da Pedra do Sino é ouvido a dois quilômetros de distância, como se indicasse a direção da Lagoa do Santo, lugar onde foram achados fósseis de animais pré-históricos.

Economia e vida currais-novense

Prefeitura Municipal de Currais Novos.

Com o passar do tempo, a vaquejada torna-se uma tradição para o município, atraindo sempre, inúmeros participantes e visitantes, sendo hoje uma das atrações do lugar.

A economia local é baseada na avicultura, agricultura, produção de mel de abelha, produção de leite de gado, extração de rochas ornamentais, ouro e feldspato.

O artesanato apresenta trabalhos bem elaborados com pedras extraídas do próprio município, além de confecções de jarros ornamentais e filtros de barro; tapetes de palha; peças de madeira; bordados à mão; ponto de cruz; macramé de renda e ponto paris; fabricação de doces e geléias.

O abastecimento d’água da cidade é garantido através da Adutora de Currais Novos, com captação na Açude Gargalheiras, em Acari. Os principais açudes do município são: Dourado, Totoró e Olho D’água dos Brandão, que juntos somam capacidade reservatória para 30 milhões de metros cúbicos d’água.

Atrações turísticas em Currais Novos

Tungstênio Hotel, o "Copacabana Palace" do Seridó.

Como uma flor brejeira, Currais Novos guarda suas belezas mais preciosas num lugar de difícil acesso conhecido como Os Apertados, um canyon cortado pelo Rio Picui entre as serras que dividem o Rio Grande do Note e a Paraíba, onde ainda é possível vislumbrar espécies de aves, répteis e alguns pequenos mamíferos nativos da caatinga.

Currais Novos é conhecido desde 1808, quando foi inaugurada a Capela de Sant’Ana e, próximo á capela, foram construídos currais de pau a pique, feitos de aroeira e que se tornaram ponto de convergência dos vaqueiros da região, para a troca e venda de gado, surgindo dessa estrutura o nome de Currais Novos.

No centro da cidade, as belezas dos casarões coloniais indicam a força econômica da schellita. A beleza da Igreja Matriz de Sant’Ana, a praça Cristo Rei, o Coreto Guarany, o Cruzeiro e o Hotel Tangstênio (considerado o Copacabana Palace do Seridó) são locais característicos de Currais Novos, que o turista não poderá deixar de visitar.

A Praça Cristo Rei é ponto convergente das pessoas nas noites de paquera onde o povo currais-novense recebe o visitante com um largo sorriso.

As festividades mais importantes do município são: Carnaxelita, Festa Junina, Forronovos e a festa da padroeira Nossa Senhora de Sant’Ana, que ocorre na segunda quinzena de julho.

Figuras rupestres, minas de schellita, trilhas ecológicas, festa de Sant’Ana, arquitetura antiga, queijo de coalho, entre outros atrativos, fazem de Currais Novos o lugar ideal para aqueles que querem sentir na pele a presença constante das mais legítimas tradições sertanejas.

Luzia Dantas, a Santeira Potiguar

A santeira Luzia Dantas e suas obras esculpidas em madeira.

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A seridoense Luzia Dantas é a santeira mais importante do Rio Grande do Norte. Com seu acabamento minucioso, sua escultura em estilo barroco impressiona pelos detalhes, como se cada pedaço de imburana aceitasse o corte certeiro do seu canivete afiado, única ferramenta utilizada para dá forma à peça.

Nascida no sítio Rio Cachoeira, município de São Vicente, região do Seridó, ainda muito jovem dona Luzia Dantas talhava bonecas de madeiras para brincar, despertando o interesse dos parentes e moradores dos sítios vizinhos pelas “bonequinhas muito bem feitinhas”, como ela mesma diz.

Cansada das bonecas, a jovem Luzia evoluiu fazendo tipos populares sertanejos, carros de boi, cavalos, outros animais, cenas de casas de farinha, retirantes e, principalmente, os santos de devoção do povo nordestino como Sant’Ana, Nossa Senhora de Fátima, São Jorge com seu dragão, entre outros. “Nunca vi ninguém fazer santos de madeira naquele tempo. Tudo que faço, aprendi sozinha”, disse a santeira, demonstrando não ter sofrido influências de ninguém em sua arte.

“Suas peças são sempre bem-acabadas, lixadas, sem pintura e com dimensões quase perfeitas. Prefere os motivos regionais, mas já assina suas peças o que denota influência de colecionadores e valorização da própria Arte”, escreveu o artista plástico e crítico de arte, Dorian Gray Caldas, no livro “Artes Plásticas do Rio Grande do Norte”, sobre as esculturas de dona Luzia Dantas.

Aos setenta anos, a artesã mora em Currais Novos, onde desenvolve seu ofício e raramente consegue guarda uma de suas peças em casa, sendo constantemente visitada por pessoas de toda parte que desejam adquiri-las. Ela assina suas peças demonstrando a preocupação com a obra de arte única e a noção de referência para quem é colecionador.

Canyon dos Apertados.

Pedra do Sino, no sítio Totoró.

Mina Brejuí.

Praça em frente a rodoviária.

Pedra do Sino.

3 comentários:

Anônimo disse...

boa reportagem sobrev currais novos, mais faltou falar da mais tradicionail festa de currais novos e do nordeste.
A VAQUEJADA !A QUAL TRAZ PARA CIDADE GENTE DE TODO BRASIL !
BRIGADO GALERA, SÓ QUIS AJUDAR.

Anônimo disse...

Prezado Alex,

Gostaria, se possível, que me enviasse mais algumas fotos da Pedra rasgada, em Currais Novos. Ao que me parece é um sítio arqueológico com inscrições rupestres. Peço que envie para o e-mail valdecisantosjr@ig.com.br fico muito agradecido

Valdeci

Priscila disse...

Estou agora na aula de Cultura do Rio Grande do Norte em Currais Novos, no Ceres da UFRN, e esse site entre outros foram indicados para pesquisa, mas esse se destacou. Está realmente de parabéns, tanto pela riqueza de informações quanto de ilustrações! :)